Quantas pessoas fazem realmente uma empresa? Ou um departamento? A maior parte das pessoas responderia “mais do que uma”, mas em muitas empresas que tenho visitado, a verdade é que tem uma única pessoa sustentando muita coisa. É o que eu chamo de ‘modelo Atlas de gestão’.
Na mitologia grega, Atlas é geralmente representado por um gigante curvado, com um joelho ao chão, carregando o mundo nas costas. Vale relembrar que Atlas é irmão de Prometeu, um dos titãs que desafia Zeus e os olímpicos e, ao ser derrotado, é castigado. É como penitência que Atlas deve carregar o mundo nas costas. Ou seja, não é um ato de heroísmo ou coragem. É falta de opção mesmo.
Para uma empresa, por maior que ela seja, é arriscado demais depender única e exclusivamente de uma única pessoa carregando tudo. A mesma lógica se aplica a um departamento. Mas vemos isso acontecendo o tempo inteiro. Geralmente são pessoas super competentes que, justamente pela competência, começam a assumir cada vez mais responsabilidades. Até que não agüentam a carga e se ajoelham sob a pressão (física ou psicológica).
O custo pessoal que esses ‘Atlas’ pagam é muito alto. Vivem no limite da exaustão física e mental. Relacionamentos pessoais sofrem. Tudo gira em torno do trabalho, não por opção, mas por falta de opção. Para piorar essas pessoas começam a se aproximar perigosamente do seu limiar de competência. Pegam tanta coisa para fazer que já não fazem nada com excelência. Isso cria uma situação muito estranha (e estressante, pois foi justamente por serem bons que os Atlas passam a receber cada vez mais incumbências). Por melhor que seja, por maior que seja sua paixão, ninguém consegue agüentar muito tempo assim.
Por isso defendo muito que toda pessoa-chave numa empresa tenha seu ‘número 2’. O número 2 é alguém que pode assumir a qualquer momento. Isso permite que o ‘número 1’ não fique com tanta responsabilidade acumulada nas suas costas. Permite também que o número 1 possa crescer, aceitando novos desafios.
O problema é que muita gente não quer ter um número 2. Canso de ver gente assumir cada vez mais responsabilidades, achando que assim torna-se indispensável para a empresa. Como empresário, posso dizer justamente o contrário. Quando vejo um Atlas, vejo um pepino a ser resolvido. Todo Atlas é um ponto vulnerável numa empresa.
Delegar é algo que não vem fácil para um Atlas. Mas é necessário, principalmente se ele/ela quiser ter uma vida pessoal normal. No livro 1984, de George Orwell, existe um personagem muito peculiar que me lembra o Atlas. É o cavalo, que a tudo responde: “Vou trabalhar redobrado”. Mesmo que a tarefa seja desnecessária ou ultrapassada. Mesmo que outra pessoa provavelmente pudesse fazer isso. Mesmo que exista uma solução diferente. Não interessa. O cavalo baixava a cabeça e dizia “vou trabalhar redobrado”. Termina o livro morrendo, sua carcaça vendida para fazer sabão. Afinal de contas, todo Atlas não questiona – só faz força.
Você não precisa levar o mundo nas suas costas. Se isso está acontecendo, ou se tem essa sensação, está na hora de parar e repensar sua vida. Antes que o peso seja tanto que você não aguente mais ficar em pé e, como um titã vencido, seja obrigado a se ajoelhar. Já não é mais uma questão de ‘administrar o tempo’. É o de administrar PRIORIDADES. E sua prioridade deveria ser viver. Lembre-se: carregar o mundo nas costas não é heroísmo, é castigo.
Deixe de ser levemente incompetente em tantas coisas. Ponha foco no que é realmente importante. Liberte-se!
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